Era uma época muito estranha em minha vida. Eu tinha acabado de completar 15 anos e tudo que meus pais sabiam falar pra mim era: “Você precisa arranjar um marido logo, Luciana!’’. Me sentia triste pois parecia que não existiam mais homens de igreja em uma cidade pequena como Itapetininga, pois todas as minhas nove irmãs já estavam casadas e minhas amigas também.
Meus pais colocaram muita pressão em minha cabeça, porque se não me casasse logo a reputação dele, um engenheiro que estava ajudando na construção da igreja Nossa Senhora do Rosário, seria severamente prejudicada diante de seus patrões e da comunidade.
Eles então me arranjaram um rapaz alto de 20 anos, branquelo, filho de fazendeiros de uma região onde hoje é o município de Alambari. Seu nome era César e todas as vezes que nos vimos demonstrava ser extremamente entediante. Cheguei a conhecer seus pais em um passeio de carroça pela cidade de Itapetininga, que estava sendo construída aos poucos. Logo depois, nossas famílias marcaram a data do casamento por interesse de ambos.
Naquela época nós mulheres não podíamos opinar, então ficou certo que iríamos nos casar na igreja Nossa Senhora dos Prazeres, a principal igreja da comunidade. Todos estávamos eufóricos, pois seria o primeiro casamento de nossas famílias realizado na igreja da Matriz, contando com a presença do Cônego. Tudo teria dado certo se não fosse algo que aconteceu comigo: me apaixonei intensamente por meu empregado.
Seu nome era Tomás Santos, e sua família era de origem africana. Seus bisavós haviam sido comprados para servir uma rica família de São Paulo. Sua família tinha uma boa reputação, por isso ele havia sido contratado para servir eu e meu noivo depois que nos casássemos.
Sempre o via andando pela nossa casa em seu uniforme social, os cabelos encaracolando enquanto secavam ao redor de suas orelhas, seu jeito desengonçado de ser. Ficava curiosa sobre aquele menino trabalhador de 18 anos.
Quando estava perto de mim e de César, ele fazia piadas e anedotas para nos animar, mas sempre era advertido por meu noivo que o considerava muito mal educado da parte de Tomás de nos dirigir a palavra. No entanto, sem perceber, comecei a nutrir sentimentos por aquele rapaz de sorriso torto e braços fortes. Eu sabia que nunca seria possível termos alguma coisa por causa do racismo da época e de meus pais. Mesmo assim, em uma noite de céu estrelado chamei-o para que nos encontrássemos às escondidas na Igreja do Rosário, que estava sendo construída por negros para os mesmos frequentarem, pois na época os brancos queriam separação de pessoas de seu povo para fazerem suas orações.
A partir daquele dia começamos a nos encontrar com bastante frequência. Rezávamos juntos algumas ave-marias, eu com meu melhor vestido de renda e véu, para não mostrar minha identidade e demonstrar respeito, e ele com seu melhor terno. Caminhávamos sob a luz do luar conversando sobre livros e política, e às vezes ele demonstrava bastante afeto comigo através de alguns gestos carinhosos. De vez em quando ele soltava suas piadas e eu ria tanto que tinha medo de acordar a vizinhança. Nos assustávamos constantemente com capivaras ou galinhas caminhando com suas patas e pés pelo chão de terra batido pensando que eram barulhos de rodas de carroças ou patas de cavalos de senhores ricos e suas famílias.
Um dia ele me levou até sua casa, bem simples, feita de tijolos artesanais. Me convidou para comer o famoso “bolinho de frango” de sua mãe, uma receita que nunca havia experimentado antes, eu amei! Muitos anos mais tarde aquela receita seria considerada patrimônio cultural da cidade.
Paramos com esses encontros às escondidas quando a data do meu casamento ia se aproximando, e nós dois, com os corações completamente apaixonados um pelo outro, percebemos que tudo era apenas uma ilusão e precisávamos nos esquecer.
Continuávamos amigos, porém sentíamos que era errado e evitávamos a todo custo nossa aproximação. Ele resolveu então ir embora para a capital para trabalhar e me deixar para trás, olvidando tudo o que havíamos vivido, já que daqui uma semana eu me casaria. Foi isso o que dizia o bilhete que eu havia encontrado.
Logo que fiquei sabendo que ele iria embora saí de casa correndo atrás da carroça, esquecendo-me de levar meu chapéu e sujando meus sapatos com terra. Ele estava parado frente à igreja que nos encontrávamos com a maleta em mãos. Quando me viu correndo em sua direção, ele a jogou no chão e abriu os braços para me receber de maneira calorosa. Me rodopiou quase deixando-me cair por causa de seu nervosismo, e pela primeira vez ele me deixou sentir o calor de seus sentimentos por mim.
Senti seu coração acelerado junto ao meu e entrelacei minhas mãos delicadas junto às suas, enquanto nos fitávamos silenciosamente pronunciando de forma não verbal nossos sentimentos proibidos. Ele se despediu de mim com os cabelos encaracolados esvoaçando contra o vento da madrugada, então partiu para nunca mais voltar. Foi ali que senti a perda de meu primeiro amor, e chorei no degrau da Igreja do Rosário sentindo meu coração rasgar junto a cada memória que vivi junto dele.
Hoje, mais de 70 anos depois, toda vez que ouço o badalar dos sinos da Rosário, ainda lembro e sinto falta de seu carinho e sorriso caloroso. Tem amor que a gente só sente uma vez, e o que ele me proporcionou foi único.

Luísa Conceição Nunes – Autora






























